Publicado por: JotaAntunes | 3 dezembro 2008

Desembargador Siro Darlan critica ação da polícia no Morro da Serrinha


Desembargador Siro Darlan

Desembargador Siro Darlan (foto do site http://www.acrj.org.br)

SIRO DARLAN DE OLIVEIRA

PRESIDENTE DO CONSELHO ESTADUAL DE DEFESA DO DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

O Rio de Janeiro está sediando o 3º Congresso Internacional de Combate às Violências sexuais contra crianças e adolescentes. E, paralelamente, a menos de 50 quilômetros do Rio Centro, a polícia dá mais uma demonstração de despreparo e desrespeito às populações mais carentes

Assim como fizeram na ocupação violenta do Complexo do Alemão, quando deixaram todas as crianças fora das escolas por mais de 60 dias, acabam de destruir um dos raros espaços culturais e educacionais existentes em comunidades empobrecidas, ao atacarem com fúria e violência a população da Serrinha sob o pretexto, aplaudidas por alguns desavisados cidadãos, de combater os comerciantes de drogas, que por incompetência da policia de fronteiras e falta de políticas públicas, obrigação dos governos estaduais e municipais, ocupam o lugar que deveria ter sido preenchido pelo Estado.

O Jongo da Serrinha é um dos mais tradicionais grupos de cultura do país tendo recebido diversos prêmios por seu trabalho artístico e social. Com 40 anos de história, o grupo de Madureira foi fundado por Mestre Darcy e sua mãe, Vovó Maria Joana Rezadeira que, preocupados com a extinção do jongo na cidade, transformaram a antiga dança praticada nos quintais da Serrinha num espetáculo.

O Morro da Serrinha, localizado na zona norte do município do Rio de Janeiro, é uma comunidade urbana com aproximadamente 5.000 moradores na sua maioria negros. Com cerca de 110 anos de existência, a Serrinha é uma das primeiras favelas do país, tendo recebido no início do século passado um enorme contingente de escravos negros recém-alforriados. Os moradores da Serrinha constituíram um núcleo religioso e cultural potencial, visitado não só pelos moradores das cidades próximas, como também por jornalistas, artistas e turistas de vários pontos do Estado do Rio, do Brasil e exterior, interessados em cultura e tradições afro-brasileiras.

O Jongo é uma herança cultural trazida pelos negros bantos que vieram da região do Congo-Angola, na África, para as fazendas de café do Vale do Paraíba no século 19 que ficou preservado na região. Graças a uma iniciativa do grupo, o ritmo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2005, como o primeiro Bem Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Ao transformar a antiga dança de roda num espetáculo, Mestre Darcy e Vovó Maria inovaram ao introduzir violão e cavaquinho no jongo e ao ensinar crianças a dançar, antigamente só permitido aos “cabeça branca”, criando uma nova referência do jongo na cidade e garantindo sua sobrevivência no contexto da globalização.

Em sua trajetória de resistência, o Jongo da Serrinha se transformou em uma das mais genuínas referências da cultura carioca e vem se apresentando em diversas cidades do Brasil e exterior divulgando e preservando o ritmo com espetáculos de alta qualidade.

Em 2000, o grupo criou a ONG Grupo Cultural Jongo da Serrinha (GCJS) para desenvolver estratégias de preservação da memória da comunidade Serrinha e do jongo e de educação e capacitação profissional para jovens e crianças, através da Escola de Jongo (EJ). Recebeu diversos prêmios entre eles o Escola Viva (2007), Cultura Nota Dez (2006), Cultura Viva (2006), Itaú-Unicef (2007 e 2005), Petrobrás Rival BR (2002), Orilaxé (2002) e o prêmio mais importante do Ministério da Cultura, a Medalha de Ordem ao Mérito Cultural (2003).

A ONG tem, em linhas gerais, duas missões institucionais: educar crianças e jovens através da arte e da memória e preservar o jongo como patrimônio imaterial através da produção cultural, gerando trabalho e renda.

A Escola de Jongo é o projeto sócio-educativo do Grupo hoje patrocinado pela Petrobrás, Criança Esperança e Ministério da Cultura. A Escola valoriza e fortalece laços familiares, comunitários e a identidade local, preservando o Patrimônio Imaterial do jongo criando alternativas de geração de trabalho e renda. A base pedagógica da Escola de Jongo é fundamentada na cultura e memória locais. A Escola de Jongo atende a cerca de 120 crianças e jovens, diariamente em dois turnos, com aulas de música (canto e percussão), dança (afro e jongo), teatro, capoeira angola, cultura popular, leitura e Griôs (contadores de história).

O GCJS também cria produtos (discos, livros, filmes, etc), pesquisa, reúne, organiza e produz acervo audiovisual sobre o jongo, a Serrinha e a cultura popular brasileira e africana..

Como ONG, está inserido em diversas redes do terceiro setor e conta com o apoio de vários parceiros institucionais. Para elaboração de metodologia pedagógica e planejamento estratégico participa das Redes Social da Música, Rede Circo Social e Rede de Memória do Jongo. A instituição conta ainda com o apoio da Unesco, FASE/SAAP, G.R.E.S. Império Serrano e artistas entre eles Paulão Sete Cordas, Letícia Sabatella, Sandra de Sá, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Jorge Mautner, Arlindo Cruz, entre outros..

Pois essa rara escola de cultura e tradição acaba de ser destruída pela incompetência dos policiais do Senhor Beltrame que sob pretexto de combater a violência, usando da mesma, deixou órfãos crianças e jovens que mesmo tendo sido roubados em seus direitos fundamentais de cidadania, porque lá o governo não chega com creches, educação, saneamento básico, se dedicavam a preservação de sua cultura e arte, mas tal qual o exército nazista foram atacados por fuzis e armas pesadas, enquanto se defendiam com sua chupetas, mamadeiras e o som de seus jongos e instrumentos. Até quando, Governador, insistirão nessa política de desrespeito ás crianças do Rio de Janeiro. Não seria a hora de usar um pouco de respeito e inteligência?”

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Responses

  1. —–Anexo incorporado—–

    Meu Caríssimo irmão José Antunes,
    Não consigo entender a atuação do Dr. Siro Darlan de Oliveira – Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, ao tomar conhecimento da ocorrência destes atos de vandalismo, violência e truculência do Poder Público do Estado do Rio de Janeiro, praticado através da ação da polícia, braço armado dos poderes constituídos do Estado.

    Para nós, cidadãos comuns, pobres mortais, militantes e ativistas dos Movimentos Negros e Sociais, o discurso simplista e generalizado, acusando a polícia, ou funcionários públicos que se excedem no cumprimento das ações de repressão do Poder Publico, é uma forma legítima para chamar a atenção e denunciar a ocorrência destes atos de violência, truculência, vandalismo e destruição de um patrimônio cultural de matrizes africanas. Entretanto, as pessoas que representam o Poder Público deste Estado, deveriam tomar medidas mais compatíveis com as suas responsabilidades e a gravidade do fato que elas querem denunciar.

    O Dr. Ciro Darlan, como desembargador faz parte do Poder constituído do Estado do Rio de Janeiro, com assento no Poder Judiciário. Por esta razão, deveria o desembargador acionar o Procurador Geral da Justiça, para que Ministério Público do Rio de Janeiro tomasse as providências necessárias no sentido de apurar a responsabilidade civil e criminal das pessoas, pela ocorrência destes atos de violência e depredação de um patrimônio histórico. .

    É preciso esclarecer aos cidadãos comuns, que a Polícia truculenta, violenta e arbitrária não é do Dr. Beltrame. Que a aprovação e concepção da política de enfrentamento da segurança pública do Rio de Janeiro, não são de responsabilidade política do Dr. Beltrame. É do GOVERNO DO Estado do Rio de Janeiro. O Dr. Beltrame é o executor destas políticas, podendo ser demitido, exonerado do cargo de Secretário, pela simples vontade do governador.

    É preciso esclarecer ainda, que o Estado do Rio de Janeiro, tem as suas ações, políticas, jurídicas e administrativas, são da responsabilidade dos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Por esta razão, entendemos que a responsabilidade objetiva e direta destas questões que hoje enfrentamos é do Governador do Estado, dos Desembargadores e dos Deputados estaduais. Assim, fica claro que estas pessoas que representam o Poder Constituído do Estado, além da responsabilidade administrativa que se lhe impõe os seus cargos, gozam foro privilegiado, para responderem por seus atos. Por esta razão, não podem tão somente fazer denuncias de forma generalizada como se fossem cidadãos comuns e não tivessem a obrigação de tomarem as providências necessárias para o enfrentamento destas questões.

    A Escola de Jongo da Serrinha, local sagrado de cultura e tradição africana, na verdade é mais uma vítima da omissão e incapacidade administrativa dos poderes constituídos do Estado do Rio de Janeiro. Que não só sob o pretexto de combater a violência urbana, mas também, e muito principalmente deixam o povo negro do Rio de Janeiro, suas mulheres, suas crianças e seus jovens, abandonados à própria sorte, não respeitando seus legítimos direitos fundamentais de cidadania. Eles fingem que não são governo, fogem da responsabilidade e criticam esta situação de covardia e falência social das comunidades carentes. Não basta a crítica pela crítica, quando você também é responsável , por ação ou omissão. A crítica fazemos nós. Eles não. È preciso agir e tornar possível que o governo leve a estas comunidades, o que lhes tem faltado à vida inteira; creches, escolas, postos médicos, cultura, lazer, saneamento básico, enfim, as condições mínimas para que estas comunidades composta na sua expressiva maioria, por negros e pardos, 47% da população do Rio de Janeiro, possa sobreviver com um pouco de dignidade.

    Sendo representante de um dos Poderes, com responsabilidade na administração das questões políticas, financeiras e sociais do Estado, deveria o ilustre desembargador Siro Darlan deveria perguntar ao Governador: Até quando Governador, insistiremos nessa política do faz de conta? Não seria o momento de um pouco de respeito e inteligência, para com as culturas de matrizes africanas, pela importância que merece esta sofrida comunidade negra do Rio de Janeiro?

    Meu companheiro José Antunes, enquanto sociedade civil organizada é nossa obrigação exigir destes governantes a rigorosa apuração destas ações de violência e vandalismo perpetradas pelo poder público. Enquanto, ativistas e militantes do Movimento Negro do Rio de Janeiro, devemos exigir ações concretas do Senhor Governador Sérgio Cabral, que em outras oportunidades afirmou o seu compromisso com as questões do povo negro, Em uma solenidade, para enfatizar sua indignação com as ações de racismo, disse governador em alto e bom som: “Todo racista é um bom filha da puta”.

    Companheiro, enquanto cidadãos comprometidos com a defesa e dignidade do povo negro do Rio de Janeiro, devemos buscar o devido apoio do governo Federal, na pessoa do Ministro Edson Santos, da SEPPIR, para contribuir com esta nossa luta, porque hoje, precisamos de respostas urgentes.

    Não podemos ignorar que estes atos de violência e vandalismo praticados contra a Escola de Jongo da Serrinha, é uma agressão violenta que atinge a todos os segmentos, das culturas de matrizes africanas no Rio de Janeiro. Nossa irrestrita solidariedade à Escola de Jongo do Morro da Serrinha, vítima da omissão, da incapacidade do Poder Público, responsável pelos atos de violência, truculência e destruição praticados contra de uma das mais significativas manifestações de cultura de matrizes africanas.

    José dos Santos Oliveira

    Diretor do

    Centro de Pesquisas Criminológicas

    do Rio de Janeiro – CEPERJ


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