Publicado por: JotaAntunes | 27 dezembro 2008

O fim e o começo da história


Na virada do século, um cientista político, Francis Fukuyama, afirmou que vivemos o fim da história com a consolidação da democracia representativa. Filósofo e economista, na interpretação dele os países se juntariam ao redor de um sistema político e econômico, conhecido como neoliberal. Importante figura do neoconservadorismo, Fukuyama elaborou uma linha de abordagem histórica, aplicando teorias de nomes fundamentais como o grego Platão e o alemão Friedrich Nietzsche, passando por Emanuel Kant e Friedrich Hegel. A teoria reforçava a tese de que, no final do século XX a humanidade teria atingido o ponto culminante de sua evolução com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre os demais sistemas e ideologias concorrentes.
Se Fukuyama acreditava no fim da história com a predominância da democracia representativa – regime de governo onde o poder de tomar decisões políticas está com os cidadãos, por meio de representantes eleitos –, pior seria sem ela. A tese foi trucidada. Para muitos, o autor defendia não apenas a democracia burguesa, mas, também o modelo neoliberal e seus sucedâneos, como o mal falado (e mal interpretado) Consenso de Washington.
Infelizmente toda a discussão sobre o fim da história ladeou questões primárias que nos apontam uma verdade crua: ainda vivemos em plena barbárie. Segundo Theodor Adorno, “a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram essa regressão”. Nossos hábitos ainda são primitivos. Queimamos nossas florestas, mantemos reféns em cativeiro, nos explodimos em nome de idéias e religiões, deixamos bebês morrerem em maternidades, milhões de pessoas passam fome, ainda nos animamos com ideais autoritários travestidos de libertários. Poucas décadas atrás, os alemães elegeram Hitler. Mussoline tomou o poder. George Bush foi eleito presidente dos Estados Unidos. A barbárie alastrou-se por diversos países do mundo. Para piorar, nosso discernimento sobre as coisas e as prioridades está cada vez mais precário, um verdadeiro show de barbárie.
Com o advento da globalização, vem a era tecnológica, sem que, de fato, tenhamos evoluído. Há pouco tempo inventamos a internet, mas ainda usamos seis litros de água limpa para dar descarga em pouco mais de 200 ml de urina. No banheiro, fazemos a higiene com papel de nossas florestas, cada vez mais desmatadas, como demonstra o Ministério do Meio Ambiente. O lixo, mesmo em sociedades desenvolvidas, ainda é um grande atentado à natureza. Sem falar nas queimadas na floresta amazônica, cuja área atingida ultrapassa o território de Sergipe.
Portanto, enquanto discutimos o fim da história, ainda vivemos em meio a hábitos incultos e primitivos. Nações educadas, como a Argentina, ainda caem nas mãos de aventureiros e oportunistas. O sistema político norte-americano ainda é vulnerável ao clientelismo em larga escala. Imaginem no Brasil! A democracia ideal está longe de ser realidade. O fim da história ainda está muito longe. Faltam mecanismos para transformar a democracia em algo verdadeiramente eficaz.
A crise sistêmica da globalização não traz uma grande oportunidade de reflexão. O debate a respeito da maneira de como melhorar o mundo não está limitado à existência de mais ou menos governo e sim à existência de sociedade e governos melhores. Precisarmos urgentemente de líderes que reconheçam tal necessidade e que ajudem a sociedade a promover a democracia. Enquanto no Brasil discute-se o cenário para as eleições presidenciais de 2010, no mundo, segundo os filósofos, questiona-se o fim da história. Na verdade, navegamos no sentido contrário à maré. Precisamos discutir, em primeiro lugar, o começo da história, diferente da degradação vivida até aqui.

Murillo de Aragão é cientista politico

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