Publicado por: JotaAntunes | 21 fevereiro 2009

CORDÃO DO BOLA PRETA x CHOQUE DE ORDEM


abocalivre331 milhão de pessoas, segundo os organizadores, lotaram as ruas do centro da cidade para seguir o
tradicional bloco Cordão do Bola Preta.
O Bola celebra 90 anos arrastando foliões na Cinelândia. O bloco é o mais antigo do Rio de Janeiro.

Não houve o “CHOQUE DE ORDEM” do prefeito Eduardo Paes.

Falta de banheiros químicos, excesso de ambulantes, poucos policiais militares se esforçavam para conter pequenos tumultos. A guarda Municipal não apareceu.
No entanto, com um milhão de foliões o BOLA PRETA atravessou a Avenida Rio Branco no sentido Cinelândia- Candelária ao som do seu hino oficial- “Quem não chora não mama”.

Choremos para que em 2010, o nosso alcaide dê uma atenção aos foliões do bloco mais antigo e tradicional da Cidade de São Sebastião do Rio de janeiro.

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Responses

  1. Oi Jotaantunes,

    Veja lindo texto que encontrei..

    beijos

    “Choque de ordem, Faixa de Gaza, recessão, bares, choque de amor

    Alfredo Herkenhoff

    Na sexta-feira 13 de fevereiro de 2009, o choque de ordem passou como um furacão por Botafogo, bairro de muitos profissionais liberais e grandes artistas no Rio de Janeiro. No vácuo da operação, equipes de jornais e TV para documentar a façanha, no estilo Polícia Federal, com script e tudo. O choque com guardas municipais, caminhão e PMs na retaguarda confunde prioridades, segundo testemunhas do episódio, lamentado como uma triste política que atinge quem trabalha e vive honestamente. Melhor seria liberar alvarás, ampliar o turismo, rasgar as multas e até conceder subvenção a quem merece, jamais punição exemplarmente cruel, punição no fundo a pessoas que amam a cidade e seus melhores botequins. Esse era o tom mais freqüente de testemunhas.

    O choque de ordem é a primeira novidade do novo prefeito Eduardo Paes. O choque tem contradições na conceituação e na execução. A operação tem sido exposta de forma não-crítica pelos meios de comunicação. O choque tem uma estrutura negativa, quase nunca mostrada pelos grandes meios de comunicação. Exibe-se apenas uma visão oficial para público distante dos efeitos de cada operação, cada blitz que causa constrangimento em pessoas de bem em botequins que despertam paixão na cidade.

    A economia informal no Rio de Janeiro é gigantesca, fruto de circunstâncias diversas, desde máfias internacionais, piratas asiáticos, até gente honesta que precisa sobreviver e, em vez de fazer política, cai dentro do trabalho sem carteira assinada, sem legalidade, mas com ética nascida da necessidade diante das dificuldades da vida. Os impostos no Brasil são tão desiguais que muita gente não perde mais tempo procurando uma generosa empresa multinacional, ou uma boa colocação no setor público. Por isso as calçadas são tomadas por gente tentando simplesmente um ganha-pão.

    O prefeito está cometendo um erro também no plano simbólico. O choque de ordem, no país do carnaval, é uma necessidade, sim. Mas a política é complexa e exige longa explicação. Ninguém duvida das boas intenções do novo prefeito.

    A maior parte da população dos Estados Unidos também não duvidava das boas intenções do presidente Bush Filho ao invadir o Iraque na esteira dos atentados de 11 de setembro, mas não faltaram avisos na ocasião de que não havia provas de que o ditador Saddam possuísse armas de destruição em massa, não faltaram avisos de que a intervenção militar, sem o aval da ONU, desestabilizaria o mercado de petróleo, e nem faltou aviso de conteúdo mais subjetivo, de que Bush Filho estivesse tentando vingar o pai, o presidente Bush que derrotou o Iraque na Guerra do Golfo, em 1991, mas não derrubou o ditador de Bagdá. Muito ao contrário, Bush Pai perdeu o emprego, entregando a Casa Branca ao rival Bill Clinton em 1994. O Barack Obama que agora a ocupa foi um dos raros políticos que, em 2003, condenou frontalmente a invasão. E o barril de óleo, que chegou a 140 dólares em julho, agora é vendido a apenas 35 dólares.

    Apesar da recessão, o Banco Central do Brasil não baixa de vez a taxa dos juros, mas o mundo inteiro os decepa para estimular investimentos que salvem ou criem empregos. Será um erro cultural essa boa-fé em nós mesmos? Nossa mania de desconfiar da competência dos outros e exagerar a nossa honestidade?
    Um exemplo desse erro já nasceu clássico: Paula Oliveira, não a atriz e musa de São Paulo, a rainha da Grande Rio, mas a advogada pernambucana que não estava grávida de nenhum filho, quanto mais de gêmeas, segundos peritos independentes em Zurique. Ela enganou o presidente Lula, o chanceler Celso Amorim e o Brasil inteiro, ou a perícia de lá que está nos enganando? E achincalhamos, com natural indignação, os cidadãos de uma Suíça que, dois dias ante do suposto atentado xenófobo de skinheads contra Paula, votou a favor da integração da Europa. A Suíça, ao contrário do que desejava sua minoria direitista e racista, aprovou num plebiscito o direito de búlgaros, como membros da União Europeia, de transitar pelos Alpes suíços e até procurar emprego em Zurique ou Berna.

    Juros altos e hipocrisia na boa-fé, dois erros. Mas o contrário de boa-fé não é má-fé. O ditado russo sintetiza a reflexão: “Confie, mas verifique”. Um antigo ditado romano esclarece o mal do afobamento contemporâneo: “Apressa-te lentamente”.

    Pois um erro decorrente deste açodamento parece pertencer ao nosso prefeito. Embora pequeno, o erro tem alta visibilidade. O choque de ordem parece maior em bairros como Laranjeiras e Botafogo, onde a população preferia o candidato derrotado.

    Claro que é essencial a disposição da secretária de Cultura, Jandira Fegali, para botar um pouco de ordem na Lapa, cuja infra-estrutura está em frangalhos. Claro que automóvel não pode estacionar na calçada. Claro que emprego formal, com empresa pagando os encargos em dia, é melhor do que a vida de camelô, que não ocupa a calçada porque quer, mas porque necessita.

    A economia informal é componente relevante do PIB. Não se ataca a informalidade com tropa de choque sem conseqüências sociais graves. Da mesma forma, não se resolve a questão da educação sem qualidade da noite para o dia. O choque de ordem parece falso moralismo para inglês ver. Mas ao contrário do provérbio romano, essa política de mudar na marra, em vez de chegar no tempo certo, faz tudo ficar lento rapidamente, especialmente a esperança de tempos melhores.

    Repetições de choque? O ex-governador Moreira Franco foi eleito, derrotando um romântico Darcy Ribeiro por meio de promessas de acabar coma violência em seis meses. Usou e abusou também da repetição da palavra “trabalho”, “trabalho”, “trabalho”. Não acabou com nada, nem com violência, nem com desemprego, nem com o seu irmão gêmeo, que é o camelô. Moreira Franco só acabou mesmo com o seu casamento.

    Desde que Pedro negou Cristo por três vezes a filosofia comprova que negar, ou afirmar, três vezes costuma ser o contrário do que se diz. Quem fala muito em ordem e chama a televisão para exibi-la, não está ordenando, está se exibindo.

    A falha da política de choque engloba erros acumulados, um deles o de anunciar que vai punir a criançada com repetência, em vez de aumentar salários dos professores e melhorar a merenda. A classe é tão desprezada que vale lembrar o velho Lua, Luiz cantando e dizendo que existem três palavras para definir quem trabalha de graça: relógio, burro e professor. Mas os filhos dos nossos políticos estudam em escolas particulares e caras. Depois vão para as universidades públicas, as melhores. Os filhos dos pobres estudam nas escolas públicas ruins e depois vão a lugar nenhum, ou, quando muito, pegam canudinhos nessas faculdades sem qualidade.

    Nas sexta-feira, o choque de ordem deu 48 horas para barraquinhas de camelôs, padronizadas na estação do Metrô de Botafogo, sumirem do mapa. Do contrário, camelôs perderiam tudo. Quantos trabalhadores informais, boa parte gente madura e de terceira idade, vão perder o ganha-pão?

    Numa situação de emergência, choque de ordem seria exigir limpeza das barraquinhas e botar banheiro químico onde existe multidão, como nas cercanias da Central do Brasil, ou nos camelódromos da cidade. Exigir limpeza e propiciar banheiro gera emprego e renda, contribuindo na luta contra a crise mundial que bate à nossa porta.

    Claro que melhor seria se o largo sobre o Metrô de Botafogo fosse uma praça limpa com crianças, e não acampamento da Andrade Gutierrez nem camelódromo semi-organizado. Mas não se resolve questão dessa gravidade da noite para o dia, nem com força bruta. É preciso dar tempo e alternativas para a ordem se instalar com qualidade e justiça, e não como destempero porque falta um alvará qualquer.
    Um posto de trabalho informal a menos em plena recessão é ruim para o país como um todo. Bares que fazem sucesso botam cadeira na rua. Se não botarem os fregueses irão embora? Ficarão de pé? Consumirão menos?

    Ninguém é contra a prefeitura em seu direito legítimo de ordenar as atividades dos contribuintes. Mas que haja bom senso e que se valorize o aspecto cultural que leva certas casas a fazer sucesso. Elas não invadem as ruas, elas são invadidas pelo amor dos cariocas, pela admiração da freguesia.

    Choque de ordem é velho. O choque foi, por exemplo, aplicado no bingo e queimou 100 mil postos de trabalho no Brasil. Mas tem bingo na Europa inteira, jogo na Espanha, Inglaterra e em Portugal. Choque de ordem está tacando fogo em empregos.

    O imperador Nero, qual Cesar Maia de dois mil anos atrás, começou bem: deu choque de ordem em Roma, limpou, ajardinou, urbanizou tudo. Depois, no fim, tal como no segundo mandato do ex-prefeito que deixou o Rio à matroca, matou a mãe e tacou fogo na Cidade Eterna. Cesar Maia, filho de Leonel Brizola, matou politicamente este pai e, no último mandato, depois de maravilho projeto Rio-Cidade dos tempos iniciais, torrou 500 milhões num teatro para música erudita nos confins da Barra da Tijuca. Para se ter uma idéia, numa cidade como Cachoeiro de Itapemirim, de 190 mil habitantes, a prefeitura tem um orçamento de 190 milhões por ano. Pois Cesar Maia gastou aquela dinheirama para construir não com mármore de Carrara da terra de Nero, mas com cimento barato da indústria nacional, e ainda teve a ousadia de batizar a casa com o nome do Dr. Roberto Marinho. Parece que a Rede Globo não aprovou a homenagem, tanto que não cita o nome do grande jornalista e empreendedor quando noticia que a Cidade da Música vai ter tanto público para ouvir violinos quanto o Teatro Municipal ou a Sala Cecília Meirelles.

    Eduardo Paes é cria de Cesar Maia. Por enquanto, em início de mandato, dispõe de quatro anos de verbas para publicidade. Hoje a mídia está soprando para o prefeito. Amanhã, no fim do mandato, pode morder como costuma fazer com o poder quando não tem mais poder de fato.

    Eduardo Paes estará procurando um pai para matar? O perigo é que com choque de ordem, em vez de matar Cesar Maia politicamente, pode matar chefes de família, matar de verdade, com o desemprego, com a marginalização mais cruel do que a própria vida de camelô. Cesar Maia cansou de bater em camelô no Centro da cidade nas tardes das sextas-feiras. Adiantou alguma coisa?

    Tacar fogo em favela, afogar mendigos, desempregar camelôs na marra: muito bonito, mas não funciona, nunca funcionou. A política do choque de ordem tem até no nome um componente de marketing, na esteira do filme Tropa de Elite, sobre o mundo cão do tráfico diante de policiais dispostos a enfrentar o problema na marra. Tiros, e o que mais? Só repetição de choque.

    Existem incontáveis Faixas de Gaza no Rio. Cada bairro tem uma Faixa de Gaza, um território abandonado ou com um dono sem-vergonha. Faixa de Gaza não é só Cracolândia de mendigos viciados no fim da linha. Faixa de Gaza também é cada escola sem equipamentos, sem dinheiro, sem ensino decente, cada hospital público com tudo quebrado e funcionando mal, só conservando as filas. Faixa de Gaza é cada reduto ocupado por jovens com AR 15, bermuda, um par de tênis e nenhuma esperança de vida, que no Brasil ladrão de rua e traficante não passam dos 30 anos de idade. Ladrão no país só envelhece se entrar para a política.

    Na mesma sexta-feira 13, à noite, o choque de ordem entrou na Rua Vicente de Souza como um choque de tristeza, acabando com a alegria de cerca de 40 pessoas que estavam nas mesinhas dispostas no calçadão diante do Bar da Feira. A rua é uma das mais bem resolvidas da cidade. Uma rua com história de harmonia social e celebração da hospitalidade. O Bar da Feira é o último lugar que poderia receber a injusta e cruel visita da lei em estado de choque. O Bar da Feira tem décadas de funcionamento. O lugar resume um pouco da história que enche Botafogo de orgulho.

    A Rua Vicente de Souza tem uns 100 metros de comprimento, indo da Muniz Barreto, sob a qual passa o Metrô, e terminando na Bambina, a meia distância da 10ª DP e do Hospital Samaritano, um dos melhores, se não o melhor do Brasil. Mas no Samaritano também se morre. Ali morreram Simonsen, Figueiredo, Roberto Marinho e Rubem Braga, entre outros saudosos e famosos. Na Rua Vicente de Souza viveu e morreu no seu apartamento o sociólogo Betinho.

    Com 100 metros, ou 200 metros de calçadas, a rua só tem uns quatro ou cinco prédios residenciais. Portanto é casario, arvoredo e silêncio, com pouco trânsito. Talvez a rua tenha escapado da fúria imobiliária por causa da feira de toda segunda-feira, que este mercado a gente só gosta na rua vizinha, não na nossa.
    Por causa dessa feira, o Bar Estrela da Bambina só é conhecido como Bar da Feira e é o único do lugar. As outras duas casas comerciais são um açougue e uma loja de autopeças, todas no mesmo imóvel do botequim, um sobrado de construção irregular, que é alugado e enfrenta questões de partilha, inventário. No meio da rua há ainda um discreto restaurante tipo fundo de quintal de um sobrado.

    A excelência da Rua Vicente de Souza é vista pela extensão das calçadas. Os dois passeios, somados, são tão ou mais extensos do que a própria pista de rolamento. O meio fio é baixo, sem santo antônio ou gelo baiano, mas nenhum carro estaciona na calçada porque impera a civilidade.
    Há pouco mais de um ano, o Bar da Feira no imóvel alugado foi negociado. Seu Antonio Português e o filho Rogério o compraram de um casal de velhinhos, também portugueses e que tocavam o negócio havia décadas. Antes, Seu Antonio trabalhava no também tradicional 98, bar e restaurante na Rua São Clemente, infelizmente com um barulho de trânsito infernal.

    Em vez de multa, o Bar da Feira merecia subvenção da Cultura. Aliás, um dos seus freqüentadores é o maestro-arranjador e maravilhoso saxofonista Humberto Araújo, homem de confiança da secretária Jandira.
    Na Rua Vicente de Souza, de onde se avista o Corcovado, o barulho ocorre apenas três vezes por semana. Na segunda, por causa da própria feira. Na sexta, por causa da cantoria dos clientes e no sábado pelo mesmo motivo, quando o calçadão vira às vezes até um pequeno dancing, como uma maravilhosa Barcelona do Samba. Na sexta e no sábado, a música vai de cinco da tarde às dez da noite. Tudo maravilhoso. Quem toca são músicos profissionais, mas tocam por amor, com suas mulheres e filhos, gente que toca até com Zeca Pagodinho e outros bambas da carioquice mais competente.

    Até dez anos atrás, havia um bar-restaurante chamado Mandrake na Vicente de Souza esquina com Muniz Barreto. Pertencia aos sócios amigos Antonio Carlos Siqueira, engenheiro, e Mascarenhas, este sobrinho neto do velho marechal e herói na Itália. Freqüentavam o lugar, até falir, Betinho, Zeca Pagodinho, na época ainda pobre, Paulão 7 Cordas e, entre outros, Beth Carvalho, que ali inventou o famoso bloco “Concentra, mas não sai”. Este bloco depois saiu, migrou para aquela bar da Rua Ipiranga, em Laranjeiras, lá se concentrando sem sair.

    O Bar da Feira herdou esse charme do Mandrake, só que é vespertino, é botequim que fecha cedo e recebe visita de famosos na happy hour. Do cirurgião mais bem remunerado ao pintor de parede mais humilde. De diretor da Petrobras a mulheres grã-finas de Ipanema. De babalaô mãe-de-santo a fiéis fervorosos da pequena igreja católica da Comunidade Shalom, que funciona quase ao lado do Bar da Feira, funciona onde ficava o Ibase de Betinho, da Alternex, o primeiro provedor de internet do Brasil. Hoje os religiosos também quebram suavemente o silêncio com uma simpática cantoria de louvações.

    Os 250 feirantes às segundas-feiras só têm três soluções para ir ao banheiro: ir ao Hospital Samaritano, mas eles não lá porque não seria conveniente para os enfermos, ir à minha casa, mas não me conhecem, ou ir ao Bar da Feira onde consomem muito prato feito, tudo fresco.

    O Bar do Seu Antonio oferece qualidade: mocotó, carnes, sardinha, feijão, mandioca, churrasco variado, salada e farofa. Não tem alvará para fazer o churrasco na calçada em frente. Mas é uma beleza a confraternização em torno do braseiro. Pena que só três vezes por semana faz churrasco.

    O Bar tem pouco movimento na terça, quarta e quinta. Domingo fecha as 16h e é pouco movimento também. O faturamento de um ano para cá é garantido pela segunda-feira, pela festa de sexta e sábado, ou seja, pelos dias de churrasco e samba, sardinha e farofa. Naquela ponta da rua perto da Bambina nenhum dos poucos vizinhos reclama de barulho. É samba com um cavaquinho, um tantã, um pandeiro, afinação perfeita e um abraço. Tudo acústico. Ao contrário do que o prefeito possa imaginar, os vizinhos são os maiores fregueses, amantes de um lugar que é o quintal de nossas casas.

    Falta só um alvará? Não. Falta um reconhecimento da cidade, falta uma visita do próprio Eduardo Paes, que seria bem recebido com a guerreira Jandira e Humberto Araújo como cicerone. Mas se a Prefeitura continuar pegando no pé de uma casa que é aula de cultura, em breve vai ter cliente pedindo desculpa, como nós, brasileiros, talvez tenhamos que vir a pedir em breve aos suíços. Vai ter cliente pedindo desculpa por ter votado em quem não ama o Bar da Feira. Entre os clientes na sexta-feira havia diversos eleitores do prefeito e que estavam irritados com a medida, mesmo que amparada em lei, porque exagerada e superada pelos bons costumes.

    Como pensar em subvenção? Simples. A prefeitura pode ajudar com dinheiro ou com apoio essas casas que exerçam função social e são positivas para a cultura. O Bar da Feira está atraindo gente de outras partes da cidade. Está dinamizando o circuito gastronômico, estimulando uma forma urbana de turismo interno. Sardinha, feijão, rabada com agrião e o churrasco! Meu Deus! Música e civilidade. A prefeitura pode ajudar tombando a rua, não permitindo a construção de mais nenhum prédio. Pode ajudar exigindo que outras freguesias melhorem seus serviços, não multando quem oferece qualidade.

    O Bar da Feira, o Sonho Lindo e outros bares da cidade estão ameaçados pela ordem, mas estas casas fazem sucesso exatamente porque souberam impor uma verdade crucial: a qualidade dos serviços em ordem.

    Até meados dos anos 90, o Jobi, no Leblon, fazia de cada barril de chope uma cadeira na calçada da Avenida Ataulfo “do” Paiva. Como o desconforto não desanimava a clientela, o arquiteto Chicô Gouvêa reformou a casa e inventou a varandinha, tornando o Jobi com aparência de restaurante tipo bistrô. Hoje a casa dos portugueses Narciso e Manoel atrai turistas do Brasil e até do exterior. Valeu a pena ampliar o uso da calçada no Leblon? Claro que valeu.

    O Bar da Feira não é nenhuma Faixa de Gaza. É a Suíça caindo no samba, é a harmonia, é lugar para levar a família, levar visitantes ilustres, é um pedacinho bacana de um Rio que sempre vai merecer o título de Cidade Maravilhosa. O Bar da Feira pode ser melhorado. A prefeitura pode ajudar e claro que vai ajudar. Vamos comemorar juntos, nós que não elegemos Gabeira e que torcemos para Eduardo Paes fazer muito sucesso. Quando um prefeito acerta a mão, a cidade vibra com ele. Quando erra na dose, a cidade fica triste, protesta, chora.

    Para salvar o Bar da Feira, é preciso garantir a alegria das sextas e sábados, que “subvencionam” o prejuízo de outros dias. Para salvar a tradição de um lugar, clientes ali já falam em continuar freqüentando mesmo que para isso, sem mesinhas, tenham que se sentar no chão. Afinal, o chão nenhuma prefeitura pode tirar.
    O Rio precisa de mais alvarás para criar empregos, mais vigilância sanitária, mais educação. Um choque de amor seria um melhor começo.

    Em homenagem ao Bar da Feira, foi iniciado um movimento para que se transforme em bloco de carnaval, do tipo “concentra, mas não sai”, ou bloco só para fazer uma vez por ano uma festa tipo passeio só na Vicente de Souza. Isso pode demorar uns dois ou três anos, que é o tempo que se leva para uma entidade dessa seriedade se consolidar enquanto bagunça organizada. Clientes já esboçam versos provisórios para uma futura marcha-rancho. Ei-los:

    Quero morrer de bolso cheio
    Nota de cem!
    Quero morrer no Hospital Samaritano!
    Bolso estribado!
    Vem dezembro, vai dezembro, é festa
    é festa o ano inteiro, todo ano!

    Quero viver no Bar da Feira
    No Bar da Feira a galera vive bem
    Na brincadeira inventa uma piada
    Pendura a conta quem não tem nota de cem

    Quando a chuva molha Botafogo
    esquenta o jogo, esquenta a batucada
    Se a viúva quiser matar saudade
    Felicidade é farra na calçada

    Na Rua Vicente de Souza
    viveu Betinho, nasceu a internet
    Amor, olha o Cristo Redentor
    A gente vê, a gente prova e repete

    Churrasquinho, farofa, mocotó
    sardinha, cerveja, aipim
    Uma família portuguesa, uma beleza
    E no meio alguém grita: “Ai de mim!”
    Sem você eu não vou
    Sem você eu não quero
    Com você eu tô no samba
    Com você tô no bolero

    Alfredo”

  2. Alfredo deu um banho não ? kkkk


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