Publicado por: JotaAntunes | 7 junho 2010

Uma reportagem comprova: favela não é fábrica de bandidos”Ninguém nasce Fernandinho Beira-Mar” Parte II Por Jorge Antonio Barros


Uma reportagem comprova: favela não é fábrica de bandidos

Poucas coisas são tão prazerosas quanto, de férias, pegar seu jornal na porta de casa e se deparar com uma excelente reportagem logo na primeira página, a vitrine da publicação. Melhor se essa reportagem foi publicada pelo jornal onde você trabalha. E mais ainda se o autor da matéria é um antigo conhecido seu. Foi o caso do repórterAntônio Werneck, autor da magistral reportagem, publicada no GLOBO de hoje, domingo, dia 6 de junho.

Durante dois meses, Werneck – um veterano repórter de crime – investigou a turma do traficante Beira-Mar, quando ele estudava no ensino fundamental de uma escola municipal na favela que deu apelido ao criminoso, no município de Caxias, na Baixada Fluminense. Dos 22 colegas de Beira-Mar absolutamente nenhum seguiu pelo caminho do crime.

A reportagem, portanto, destroi um velho mito de setores conservadores da sociedade brasileira, que costumam criminalizar as classes pobres, considerando-as perigosas. Ela mostra que as favelas não são fábricas de bandidos, como supõem alguns governantes. A reportagem de Werneck faz parte de uma série especial que vem sendo publicada pelo GLOBO sobre os desafios da educação em áreas de risco. A matéria de Werneck é o que a gente costuma chamar nas redações de a cereja do bolo.

A determinação de Werneck ao conseguir falar com a maioria dos colegas de Beira-Mar é uma excelente lição de jornalismo para a geração de novos repórteres que costumam desistir ao primeiro “não”. Oito dos colegas não quiseram dar entrevistas. Infelizmente as pessoas costumam ter medo da imprensa.

Mas a grande revelação da matéria de Werneck está na constatação de que os coleguinhas de Beira-Mar – apesar de pobres como ele – conseguiram superar as dificuldades e seguir o caminho do bem. Deve ser realmente uma tentação para alguns jovens viver diante de ofertas de “trabalho” que lhes proporcionam renda e status que jamais conseguiriam como operários do sistema formal. Cegos pela ambição de serem temidos em suas comunidades, amados e odiados, muitos jovens acabam inclusive ignorando os riscos de aderir ao crime, acreditando que suas vidas não têm valor algum. E por isso mesmo acabam matando como quem toma um copo d’água.

Na verdade a falácia de que a pobreza é um celeiro do crime começou a ser demolida com o livro “O mito da marginalidade”, da antropóloga Janice Perlman, que praticamente morou em favelas da Zona Sul do Rio para fazer a pesquisa que desmentia a ideia de que pobres e favelados são potenciais criminosos. Só que esse livro sempre foi encarado como ingênuo por alguns setores da sociedade. Com o crescimento da violência urbana, sobretudo a partir do final da década de 70, acabou ganhando força a ideia de que as favelas produziam só criminalidade. É verdade que as favelas, como áreas nascidas à margem do sistema legal, favoreceram a criação de refúgios para criminosos e foras-da-lei. No vácuo deixado pelo poder público, os traficantes acabaram virando os donos do território rigorosamente demarcado.

Não resta dúvida de que a desigualdade social continua produzindo futuros candidatos a Beira-Mar, mas cabe ao poder público impedir que eles cresçam e apareçam. Para isso, não basta levar polícia às comunidades pobres – que é o que vem sendo feito pelo projeto da pacificação de favelas. Além da presença do Estado por meio de serviços que precisam garantir o mínimo de eficiência, o que realmente fará diferença é a inclusão social dos moradores das favelas, já na infância. E o único caminho para isso é uma escola de qualidade, que atraia não apenas o estudante, mas toda sua família. A escola na favela – talvez mais do que em qualquer espaço urbano – precisa se transformar na maior referência da civilização para que a barbárie seja neutralizada.

Jorge Antonio Barros
Jornalista
Editor-adjunto de Rio do GLOBO


Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: