Publicado por: JotaAntunes | 26 junho 2011

Vampirismo acadêmico


Por Antonio Luiz Mendes de Almeida
Professor

Imagem Internet


Meus sete leitores sabem de minha cisma ou birra com mestres e doutores por não reconhecer neles, salvo exceções, qualidades para o exercício do magistério mister para o qual sequer foram preparados já que, por princípio, se destinam a pesquisas. E tanto lhes faltam habilitações, jeito e dom que, em regra, são arrogantes e prepotentes e têm a petulância de se recusarem a dar aulas na graduação por não a considerarem platéia digna de suas excelências. Na realidade, são os tolos beneficiados por uma espúria e corporativa “reserva de mercado” que obriga às universidades a contratá-los, alijando os bons professores, os profissionais que trabalham diariamente sobre as matérias que lecionam, levando para a sala de aula a vivência da profissão, seus macetes e dificuldades, a discussão de problemas reais. Mestres e doutores se beneficiam de regimes de dedicação exclusiva ou 40 horas semanais, nenhum deles cumprido e por vezes até acumulam salários em instituições diversas, fingindo que trabalham ainda mais porque são premiados, nas quarenta horas, com um máximo de metade em classe e as demais, teoricamente para pesquisas, são para flanar, tendo em vista que muito raramente produzem trabalhos, artigos ou análises e investigações que contribuam para a melhoria da disciplina da qual se dizem titulares. Na realidade, é uma farsa. Pior é quando se exibem como orientadores de doutorandos e deles fazem, abusivamente, quase seus empregados domésticos, obrigando-os a arrumar sua casa, limpar a biblioteca, faxinas, ir a supermercados, montar cursos e ementas que depois apresentam como de sua lavra ao mesmo tempo em que assinam qualquer produção de seus pobres e explorados alunos. Trata-se de um vampirismo acadêmico em que sugam os coitados para proveito próprio, o que se evidencia quando atrasam ao máximo a defesa de tese para não perderem a gratificação que recebem. Não bastassem serem considerados doutores, se dão ao luxo de criar um “clubinho”, de um inventado pós-doutorado inexistente que lhes afague o ego já inchado de vã e estulta vaidade. Não é esse o caminho para se melhorar o ensino, ao contrário, só se o abastarda cada vez mais em face da pusilanimidade existente dos que se creem professores.

Já escrevi sobre o assunto e, compulsando o arquivo, desencavo um texto de agosto (para ficar no mês, coincidência…) de 2001(nada muda…) e dou-lhe uma atualizada, mesmo sabendo que repetirei conceitos já expressos no parágrafo inicial, ou melhor, os enfatizarei. Encontro, vez por outra, concordância com os pontos de vista que esposo, como é o caso do artigo “A pós-graduação e a mais valia” de autoria do Dr. Flavio R.L. Paranhos, publicado no “O Popular” de Goiânia. Do coração verde da pátria vêm as palavras precisas e que me deram especial satisfação já que as endosso totalmente e verifico não estar só na minha cruzada inglória contra as bobagens e presunções que infestam a educação. Repito-as: “O mestre/doutor é necessariamente melhor médico do que o que não possui esses títulos? Não. (…) Um erro grosseiro que se vem cometendo sistematicamente, e, o que é pior, encarado de forma natural, é a valorização cega e obsessiva dos títulos de mestre e doutor pelos meios oficiais de fomento à educação. Se determinada universidade tem mais mestres/doutores, é mais bem conceituada, recebe mais atenção, enfim mais dinheiro. Em conseqüência, temos universidades tradicionais tratando de garantir que seus próprios quadros abocanhem logo o título e professores sem a menor vocação para a pesquisa sendo obrigados a enfrentar os cursos, não como se fossem cursos, mas, sim, como obstáculos à obtenção do amaldiçoado título (…) Não há porque obrigar bons professores da graduação a passar pelo suplício de um curso de pós-graduação. Existem meios mais inteligentes e justos de mantê-los atualizados. Por outro lado, não faz sentido obrigar pesquisadores a dar aulas, se essa não for sua vocação. O prejuízo é duplo: deles próprios e dos alunos (…) São de vital importância as disciplinas do chamado domínio conexo (metodologia científica, estatística e didática, por exemplo). É de estarrecer o desprezo que dispensam a essas disciplinas os alunos que evidentemente entram na pós-graduação com todas as credenciais do mundo, exceto a que mais interessa: a vocação. Resultado: formam-se mestres e doutores sem a menor noção dessas matérias.”

Foi-se o parágrafo bem entregue às valiosas considerações do Dr. Flávio Paranhos (passa a ser um artigo a quatro mãos…) e das quais ressalto a acurada observação da ausência do requisito essencial à prática docente: a vocação, o gosto, a queda pela missão de ensinar, uma de minhas encanecidas teses. É exatamente o que vem acontecendo já que basta, tão-somente, alcançar a titulação que se tornou indispensável ao ingresso nos corredores acadêmicos e representa um plus de remuneração, único objetivo dos imberbes que engrenam a pós logo a seguir a uma graduação talvez insatisfatória, para garantir a continuidade da mesada dos pais… Esse contingente despreparado, sem cicatrizes da vida profissional, vazio de experiência, transforma-se no professor enfatuado, distante de seu aluno, incapaz de compreender a vida dentro de uma sala de aula, despido de comezinhos princípios de convivência social, alguém aborrecido e que aborrece os outros. É a esta gente, mestres titulados, mas falsos professores, que a educação vem sendo entregue, em nome de uma teoria qualquer, na realidade um “grêmio” de apaniguados que encontrou um veio para auferir mais dinheiro sem nenhum compromisso com os objetivos educacionais e com a qualidade que se faz necessária ao exercício de transmitir conhecimentos, de preparar os mais jovens, de descortinar futuros, de formar o profissional competente e, principalmente, o homem, o cidadão cônscio de seus direitos e obrigações, Em razão de ditames saídos de gabinetes desligados da realidade ou, provavelmente, compromissados com interesses pouco recomendáveis, vimos sofrendo a invasão desses tristes personagens que transformam as aulas em tortura, a cátedra em palco de suas vaidades parvas, o aprender em sacrifício, estiolando a universidade que se paralisa, perde a criatividade, fecha-se em si mesma, enfraquece e se distancia da comunidade à qual deve servir. Antes que, novamente, ecoem as vozes rancorosas, os costumeiros defensores de comendas e capelos bordados, sublinho e reitero minha posição: a pós-graduação deve pressupor um interstício, o aprendizado na labuta da profissão para que se definam as ambições e o aluno tenha a bagagem suficiente à ampliação de seu conhecimento, aprofundando estudos que possam, realmente, contribuir, não para seu currículo individual, mas para a sociedade, seja nas pesquisas (que inovem e tenham serventia) de que tanto carecemos seja, desde que remodelados os cursos e direcionados corretamente para a tarefa de lecionar com a qualidade devida..

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