Publicado por: JotaAntunes | 24 julho 2011

Confira a entrevista com Antonio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz


POR FLÁVIO ARAÚJO
Rio – Duas pulseiras — uma verde, da esperança, e outra preta, do luto, ambas já desbotadas — simbolizam, para o presidente da ONG Rio de Paz, o teólogo Antonio Carlos Costa, as mortes no Rio, hoje na faixa de 30 pessoas por mês para cada 100 mil habitantes. “Só tiro as pulseiras quando chegarmos ao nível aceitável pela Organização Mundial da Saúde, de 10 mortos por 100 mil”, garante. Para ele, a sociedade unida é capaz de mudar a face da violência, usando como estratégia a criatividade. Como no domingo que vem, quando integrantes da ONG — criada no fim de 2006, logo após uma onda de violência na cidade — vão fincar 3 mil cruzes na Praia de Copacabana. O número corresponde a 10% das 30 mil mortes violentas no Rio entre janeiro de 2007 e maio deste ano.

ODIA: Quando surgiu e o que motivou o Rio de Paz?

ANTONIO CARLOS: Em janeiro de 2007, eu e um grupo de amigos fomos para a Cinelândia, todos de camisas pretas e segurando velas. Foi logo depois da morte de 19 pessoas na cidade, oito delas queimadas vivas, numa onda de ataques de bandidos. Tenho muita vergonha de admitir que a violência me revoltava e eu não fazia nada. Nada fiz na chacina da Candelária ou na de Vigário Geral.

O que diferencia o Rio de Paz de outras ONGs?

É a criatividade que brota do desespero. Somos cidadãos comuns, sem poder, querendo despertar uma cidade que lida com um problema histórico e endêmico da violência. Queremos mobilizar as pessoas e constranger o poder público. E mobilizar pessoas é muito difícil, nunca consegui. Então usamos imagens impactantes que ganharam divulgação na imprensa.

Por que é difícil mobilizar pessoas?

Acho que é um problema do brasileiro. O que falta para a democracia brasileira é a participação popular porque nós permitimos que crimes sejam cometidos, seja na área dos direitos humanos, seja na corrupção, enfim, crimes que parariam qualquer país desenvolvido.

Você sempre estudou segurança? Qual é a sua formação?

Quando comecei o Rio de Paz, não sabia sequer a diferença entre a Polícia Civil e a Militar. Como trabalho no meio acadêmico, fui procurar os estudiosos e aprender com eles. Sou teólogo, tenho ligação com a igreja protestante e estou fazendo doutorado na França sobre direitos humanos.

Desde o início, você sempre se disse evangélico. Isso trouxe preconceito em relação ao movimento? As pessoas não acharam que você queria fundar uma igreja e não uma ONG?

Sim, houve preconceito de uma parcela da sociedade. De certa forma, justo. Muitos evangélicos exploram a desgraça humana, vendem milagres e se calam diante da desgraça que tanta gente passa. Eu não sou reacionário, retrógrado, fundamentalista. Na verdade, não estamos fazendo nada novo. Martin Luther King, pastor evangélico, foi para as ruas defender os direitos civis dos negros. Já na favela, ser cristão me abriu as portas, as pessoas confiam e se abrem.

Como o Rio de Paz consegue sobreviver?

Não temos vínculo partidário, não recebemos verba pública, nem de empresa nenhuma. Tudo que fazemos é fruto de ‘vaquinha’ dos voluntários. Quando fizemos o protesto pelas 16 mil mortes no Rio, juntamos 16 mil cocos vazios, que pegamos no lixo da praia. Uma iniciativa braçal e barata.

O caso Juan é um marco para o movimento?

É um marco para o Rio de Janeiro e para o Brasil. Que a morte dele não seja em vão e ajude a mudar os procedimentos das polícias. A imagem da nossa faixa ‘Quem matou Juan?’ no Cristo Redentor correu o mundo.

E a questão dos desaparecidos no estado?

Qualquer redução de mortalidade precisa levar em conta os desaparecidos, porque todo mundo sabe que no Rio tem cemitério clandestino, ‘microondas’ do tráfico, corpos comidos por porcos, jacarés. O caso Patricia Amieiro é apenas um exemplo de milhares.

Como você avalia a pacificação das comunidades?

É a maior vitória do governo, mas que traz uma grande responsabilidade sobre os governantes. Nunca antes uma política teve tanto apoio da sociedade, quase 90%. A frustração será sem tamanho se houver retrocesso. O projeto precisa de sustentabilidade, controlar os policiais para que não virem uma ‘milícia estatal’, se podemos definir assim, não permitir que eles se envolvam com corrupção, com abuso de poder.

E a polícia do dia a dia?

É duro afirmar, mas sem reforma das polícias até o projeto de pacificação não avança. Que se acabe com o Fla x Flu de polícias que se complementam e precisam do trabalho uma de outra e não dialogam, não trabalham em conjunto e muitas vezes se prejudicam. É preciso também investir em corregedorias externas, que possuirão independência para punir.

Fonte:Odiaonline

Nota do Blogueiro:Antônio Carlos Costa – Teólogo calvinista e presidente do Rio de Paz.É pastor da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, Brasil. Mestre em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, no Instituto Presbiteriano Mackenzie. É doutorando pela Faculté Libre de Théologie Réformée, França.

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Responses

  1. M boa a materis


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