Publicado por: JotaAntunes | 13 outubro 2014

Malala, a herdeira


Malala, a herdeira

Luta da jovem ganhadora do Nobel da Paz renova a fé no futuro de gerações ativistas de direitos humanos e igualdade de gênero

Malala Yousafzai podia estar brincando. Mas, aos 11 anos de idade, ousou denunciar na internet atos do regime Talibã para proibir meninas de estudar. Em 2012, foi baleada por mascarados no Paquistão natal, dentro de um ônibus escolar. Recuperou-se no Reino Unido. Sobrevivente, não fugiu à luta. Seguiu na briga pelo acesso dos pequeninos à educação. Na última sexta, tornou-se a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz. A história de Malala é, particularmente, inspiradora no Dia da Criança. A combativa (agora) adolescente anima o coração de gerações de defensores dos direitos humanos e da igualdade de gênero. O metafórico anel de bamba da famosa canção brasileira tem herdeira. “Não deixe o samba (digo, a luta) morrer”, Malala.

A composição de Edson e Aloísio, de 1975, cairia bem ao indiano Kailash Satyarthi, de 60 anos. Ele, que dedicou quase metade da vida ao combate ao trabalho infantil, divide o Nobel 2014 com a jovem paquistanesa. Em um quarto de século, libertou 80 mil crianças de diversas formas de servidão. Deve estar feliz também pelo reconhecimento do comitê do prêmio à menina que elegeu a educação como bandeira. A luta contra a exploração da mão de obra e pelo acesso universal dos menores à educação são complementares, faces de uma mesma moeda. Lugar de criança não é no trabalho, mas na escola. Satyarthi encontrou a sucessora.

Não faz muito tempo, expressei neste espaço pesar por seguidos episódios de discriminação racial protagonizados por jovens no Brasil. Moças e rapazes que não completaram 30 anos reproduziam em redes sociais e estádios de futebol ideias racistas de dois séculos atrás. Nada mais triste para quem cruzou a primeira metade da vida do que se deparar com uma juventude de mente atrasada. A existência de Malala alivia a ferida.

Um ano atrás, em discurso na ONU, a ativista emocionou novamente o mundo. “Os terroristas pensaram que interromperiam minhas ambições. Mas nada mudou na vida, com exceção disso: fraqueza, medo e falta de esperança morreram. Força, coragem e fervor nasceram”, disparou.

Na entrevista após o anúncio do prêmio, Malala afirmou que “não importam cor da pele, religião ou país, todos devem ser respeitados e lutar pelos direitos das crianças”. A seu jeito, repetiu o líder americano Martin Luther King Jr., outro ícone mundial da luta pela igualdade, ganhador do mesmo Nobel da Paz há exatamente 50 anos.

O Brasil, felizmente, não padece da mazela da restrição à vida escolar por gênero. Aqui, quase não há diferença na escolarização de meninos e meninas. Na população de 4 a 17 anos, 92,7% deles e 93,4% delas estudam. É diferente do que ocorre em países da África e da Ásia. Para ficar em um exemplo, em maio deste ano, na Nigéria, o grupo islamita Boko Haram sequestrou 276 adolescentes, de 16 a 18 anos, de uma escola. A organização prega o fim do que chama “educação ocidental” para mulheres.

Mas o sistema educacional brasileiro ainda precisa avançar na qualidade e também na escolarização das faixas extremas. Quase todas as crianças de 6 a 14 anos estão matriculadas. Mas de 4 a 5 anos, 81,4% vão à escola; de 15 a 17, 84,3%. O trabalho infantil caiu em 2013, mas ainda ainda é problema. Dos menores de 5 a 17 anos, 7,5% trabalham. Há no país 3,188 milhões de trabalhadores mirins, 41% com até 15 anos. Por isso, o Nobel de Malala e Satyarthi inspira o ativismo também do lado de cá do Atlântico.

Por Flávia Oliveira 0

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