Publicado por: JotaAntunes | 25 fevereiro 2016

OS NEGROS -A rica e esquecida história de André Rebouças e de outros homens notáveis


Por Irapuan Costa Junior

A curta memória nacional: formei-me em engenharia antes da reforma de ensino proposta pelo presidente Castello Branco, implantada em 1968. As várias cadeiras que compunham um currículo escolar superior tinham professores catedráticos vitalícios, escolhidos em concursos de títulos e provas. Esses concursos eram — principalmente as provas orais — debates os mais eruditos sobre as matérias das cátedras em concurso. As provas orais, duríssimas, constituíam-se em verdadeiros espetáculos de conhecimento e saber para os aficionados. Ai do candidato a cátedra que não dominasse inteiramente a matéria respectiva.

Entre os vários catedráticos da Escola Nacional de Engenharia, no Rio de Janeiro, houve um que me ficou na memória pela excelente didática, pelo conhecimento da matéria que lecionava e pela vasta cultura de que era portador. Chamava-se (faleceu em 2005) Sydney Santos, e era catedrático de Resistência dos Materiais. Era matéria bem específica do curso de Engenharia Civil, básica para outras, como Concreto Armado ou Estruturas Metálicas, algo, portanto, bastante técnico. Contudo suas aulas, a par da Resistência dos Materiais propriamente dita, acabavam deixando-nos ilustrados em Geografia, História e outras matérias, pois o professor as usava com frequência, buscando em sua privilegiada memória, para exemplificar aplicações, no tempo e no espaço, das técnicas que nos ensinava. Conhecia a fundo os vultos nacionais ligados à engenharia, e só recentemente eu soube que no fim da vida ele se dedicou a escrever sobre essas figuras, que a curta memória nacional abandona, e que merecem ser mais bem conhecidas pelos jovens que hoje, com ferramentas tecnológicas avançadas, vão seguir seus passos profissionais. Sydney Santos escreveu sobre nomes marcantes do conhecimento nacional, ainda que pouco conhecidos ou lembrados, deixando artigos ou livros publicados sobre eles, como:
André Rebouças (André Pinto Rebouças, 1838-1898) era engenheiro militar. Participou da Guerra do Paraguai, na qualidade de engenheiro, mas teve, mais de uma vez, que pegar em armas. Trabalhou no serviço público como professor, engenheiro e inspetor da alfândega. Ficou famoso por resolver o problema de abastecimento de água no Rio de Janeiro. Viajado, falava fluentemente inglês e francês. Era amigo e protetor de Carlos Gomes, a quem ajudou financeiramente quando o maestro estudava na Itália. Mulato, aborreceu-se quando fez uma viagem aos EUA em 1873, com o elevado preconceito racial que viu ali. Abolicionista, teve presença importante na edição da Lei Áurea (era amigo de Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e Taunay). Monarquista (seu pai, filho de escrava, chegou, admiravelmente, a advogado e conselheiro de Pedro II), exilou-se na Europa quando da proclamação da República. Mudou-se para a Ilha da Madeira, onde, deprimido, suicidou-se. Escreveu dezenas de trabalhos técnicos e mais de uma centena de artigos em jornais. O livro de Sydney Santos sobre ele (“André Rebouças e Seu Tempo”, Editora Vozes, 1985) é uma detalhada biografia, fartamente comentada, de quase 600 páginas.

ANDRE

Pandiá Calógeras (João Pandiá Calógeras, 1870-1934) era engenheiro, formado pela Escola de Minas de Ouro Preto. Foi deputado por vários mandatos. Foi ministro da Agricultura e da Fazenda (governo Venceslau Brás) e ministro da Guerra (governo Epitácio Pessoa). Modernizador do Exército, criou instituições que funcionam até hoje, como a Esao (Escola de Preparação de Oficiais do Exército) e Esg (Escola Superior de Guerra). Criou a lei sobre mineração que levou seu nome, disciplinando o uso do subsolo. Chefiou a delegação brasileira à conferência de paz de Versalhes, ao final da Primeira Guerra Mundial.

Everardo Backheuser (Eve­rardo Adolpho Backheuser, 1879-1951), engenheiro, foi catedrático de Geologia e Mineralogia. Introduziu no Brasil o estudo da Geopolítica (seus trabalhos serviram de base e são citados pelos geopolíticos mais modernos, como Golbery do Couto e Silva e Meira Mattos). Foi jornalista, redator de vários jornais e um dos fundadores da Aca­demia Brasileira de Ciências. Deixou vários livros publicados, sobre Geografia, Geologia, Educação e Cultura Geral. O livro biográfico escrito por Sydney Santos detalha a carreira de Backheuser em quase 500 páginas (“A Cultura Opulenta de Everardo Backheuser”, Editora Vozes, 1989).

Vicente Licínio Cardoso (1889-1931). O livro de Sydney Santos (“O Legado de Vicente Licínio Cardoso — As Leis Básicas da Filosofia da Arte”, Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro) é uma mistura de biografia e seleta da produção intelectual do biografado, ao longo de 650 páginas. Engenheiro por formação, arquiteto e artista por vocação, filósofo por destino, Vicente Licínio lançou não só as bases como desenvolveu (e escreveu um alentado livro sobre) a Filosofia da Arte. Professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro e da Escola de Belas Artes, também deixou escritos sobre engenharia, arquitetura, arte, história e humanismo, embora tenha tido uma existência curta — suicidou-se aos 41 anos. Deixou também um livro de aforismos (próprios e de filósofos gregos), chamado “Maracás”.

Os homens citados foram patrícios importantes no desenvolvimento nacional e na projeção do Brasil no exterior, mas pouco se escreve sobre eles. Menos ainda se fala. Dos quatro, só muito poucos leitores hão de conhecer dois ou mais. Euler de França Belém me diz que, ao menos no que respeita a André Rebouças, há mudanças no cenário do esquecimento. Descobriu ele dois livros recentes sobre o brilhante engenheiro mulato e sua luta abolicionista: “Da Abolição da Escravatura à Abolição da Miséria — A Vida e as Ideias de André Rebouças”, de Andréa Santos Pessanha (Livraria Quartet Editora) e “O Quinto Século: André Rebouças e a Construção do Brasil”, de Maria Alice Rezende Carvalho (Editora Revan).

Fonte: JORNAL OPÇÃO

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